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Análises

Anabolizantes na adolescência: riscos maiores e irreversíveis

Em corpos ainda em formação, os esteroides anabolizantes podem suprimir a testosterona, travar o crescimento e deixar sequelas permanentes.

Por André N

Por que a adolescência muda a conta

Na maioria dos adultos, os efeitos colaterais dos esteroides anabolizantes são reversíveis e, com o devido acompanhamento, controláveis. O corpo se recupera. O problema começa quando quem usa ainda não terminou de crescer.

Adolescentes tendem a apressar resultados e recorrem aos anabolizantes sem entender que, nessa fase, a conta é outra. E não é só uma questão hormonal: entram também fatores comportamentais e sociais que tornam o uso mais perigoso justamente para quem tem menos estrutura para lidar com as consequências.

A escolha pelos orais cobra do fígado

Vale separar um ponto que costuma gerar confusão: o esteroide anabolizante não agride o fígado de um adolescente mais do que agrediria o de um adulto. A substância é a mesma. O que muda é o comportamento de quem usa.

Adolescentes costumam fugir das injeções e enxergar nas versões orais uma alternativa mais tranquila. A cápsula passa a falsa sensação de ser algo leve e seguro, quase como tomar um suplemento — afinal, não é preciso injetar nada estranho no corpo, e o uso parece tão simples quanto engolir um comprimido. É aí que mora o engano.

Esteroides orais rendem menos anabolismo do que suas versões injetáveis e, por cima, costumam ser mais tóxicos. Todo hormônio em forma oral precisa passar primeiro pelo fígado, ser metabolizado e só então virar hormônio ativo na corrente sanguínea. Ou seja: o caminho que parece mais confortável é justamente o que mais castiga o fígado.

Supressão da testosterona em pleno amadurecimento

Quando um adulto com sistema endócrino saudável e já formado usa anabolizantes, a produção natural de testosterona é desligada na presença dos hormônios esteroides. Isso acontece com qualquer hormônio e qualquer dose. Níveis acima do normal avisam o hipotálamo para frear a produção própria de hormônios.

No adulto, o estrago tende a ser temporário: cessado o uso e feita a terapia pós-ciclo, a testosterona volta a subir naturalmente. Num adolescente, o cenário é diferente. Interromper a produção hormonal em plena fase de crescimento pode bagunçar todo o processo de maturação — e nem sempre isso retorna ao lugar.

E não adianta procurar a dose mágica: não existe droga nem dosagem segura. Para que os anabolizantes provoquem mudança física, é obrigatório que os níveis hormonais fiquem acima do normal — do contrário, não haveria efeito algum. E, se os hormônios estão acima do normal, a testosterona vai ser suprimida. Não há como escapar dessa equação. Isso vale até para as substâncias que não derivam diretamente da testosterona: elas também interferem na produção natural de hormônios. Em resumo, não dá para usar hormônio sintético sem desregular o sistema endócrino, e o efeito é muito mais grave num sistema que ainda está se formando.

E os pró-hormonais?

Confundir suplemento alimentar — que é, no fundo, comida em pó — com esteroide anabolizante é ignorância. Mas pró-hormonais como o M-Drol e outros são outra história: são drogas anabólicas disfarçadas, que o fígado metaboliza e converte em esteroides dentro do organismo. Portanto, tudo o que vale para os anabolizantes na adolescência se aplica igualmente a eles.

O risco de travar a estatura

Vários estudos indicam que treinar com pesos, feito de forma correta e sem exageros, não atrapalha o crescimento. O problema é que não existe veredito sobre o que acontece com quem usa anabolizantes nessa fase.

Sob efeito das substâncias, o ganho de força e de massa muscular dispara de forma exponencial, e essa sobrecarga pode afetar as placas epifisárias — as placas de crescimento — e comprometer a estatura final. Vai acontecer com certeza? Não há como saber. Vale o risco? Quase certamente não.

O efeito não fica só no corpo

Anabolizante não provoca problema psicológico do nada. O que ele faz é amplificar aquilo que já existe, por conta da montanha-russa hormonal que ocorre durante e depois do ciclo.

Encerrado o ciclo, a testosterona pode ficar muito baixa e demora a normalizar, mesmo com terapia pós-ciclo. Nesse intervalo vêm a perda de força, de massa muscular e de libido, além de oscilações de humor e todo tipo de sensação. Cada pessoa reage de um jeito e com intensidade diferente, mas, no geral, é impossível se sentir bem de testosterona baixa. Alguém ainda em formação, e que já carregava questões emocionais, tende a sofrer muito mais — ainda mais porque, na maioria das vezes, o uso foi estimulado por pressões sociais ligadas à autoimagem.

Não existe "ciclo leve"

A pergunta clássica é: "e se eu fizer só um ciclo bem fraquinho?". A resposta é dura: não existe ciclo leve o suficiente para não mexer com o funcionamento do sistema endócrino. Ou você usa doses decentes, gera ganhos e encara os possíveis colaterais, ou usa doses baixas demais, não vê resultado nenhum e ainda assim corre risco de colateral. Não há meio-termo em que só o lado bom aparece.

Os anabolizantes empurram os níveis hormonais para o patamar suprafisiológico, e eles precisam se manter altos por um tempo para que os ganhos aconteçam. Mesmo em ciclos pesados, com doses altas, o resultado leva algumas semanas para aparecer de verdade. Então esqueça a fantasia de fazer um ciclo leve ou "injetar umas vezes" só para dar um up rápido no físico. As coisas não funcionam assim.

Se ainda assim você quer usar

O ponto central é simples: na adolescência, vários sistemas do corpo ainda estão em construção, e jogar hormônio sintético no meio disso pode sabotar todo o processo — possivelmente de forma definitiva.

Se a decisão de usar anabolizantes já está tomada, o mínimo é esperar o corpo amadurecer por completo. Ter um trabalho fixo, não depender dos pais para poder buscar ajuda profissional e ter maturidade para encarar de frente as consequências das próprias escolhas. Antes disso, o risco é grande demais para aquilo que se tem a ganhar.